O sim e o não na construção da pessoa

Uma criança, quando nasce, tem a predisposição para incorporar as rotinas que advêm do intercâmbio social que ela promove desde o primeiro dia de sua existência. Por ser absolutamente dependente do seu meio socioafetivo, a criança tem um expediente bem conhecido por todos nós para mobilizar os adultos, pois ela só sobreviverá se for adequadamente atendida.

Em seus primeiros meses de vida, o recém-nascido vive sob o domínio orgânico, ou seja, suas vivências limitam-se a sensações físicas de prazer e desprazer. Tem uma identidade chamada cósmico-indiferenciada por não reconhecer-se como sujeito e não diferenciar-se do mundo externo. A comunicação do recém-nascido se dá através de um ego-auxiliar, alguém que interpreta suas necessidades e age por ele. Ao ser atendida em suas necessidades básicas de forma competente, atenta e afetuosa por seu ego-auxiliar ou duplo, a criança vai guardando em sua memória corporal as sensações de prazer e desprazer. Estas sensações geram os primeiros rasgos da cognição. No intercâmbio com seus egos-auxiliares, vai amadurecendo e começa a perceber-se separada do todo, que compõe o conjunto das pessoas e dos objetos. O mundo não é mais um caos, um aglomerado de coisas. Delineiam-se, nesse período, as primeiras organizações de ordem cognitiva. Nesta fase, a criança comunica-se por espelho e aprende por imitação.

Após esse período de desenvolvimento, a criança começa a diferenciar-se do outro e a reconhecê-lo como entidade. Discrimina o “eu” à medida que reconhece o “tu”, e nesse movimento relacionai, acaba percebendo-se como individualidade. A criança aprende por reflexão e descobertas e identifica o “tu” como outra pessoa, estabelecendo corredores relacionais. O corredor relacional é a possibilidade que uma pessoa tem de verdadeiramente interagir: eu-tu.

A partir desse desenvolvimento, a criança vai amadurecendo outras formas relacionais, que vão desde o corredor até a possibilidade de ela colocar-se, ou perceber-se como um “ele” na relação, para na continuidade poder circularizar, ou seja, estar em grupo sem a necessidade de ser o centro das atenções: a vivência do “nós”. Em meio a esse movimento educacional acaba tendo maturidade para colocar-se no lugar do outro: a chamada inversão de papéis para, finalmente, estar pronta para viver a relação Télica, em que “eu te verei com os teus olhos e tu me verás com os teus”, a forma mais amadurecida e desejada nas relações, segundo Moreno, o criador do psicodrama.

Os adultos que habitam o mundo de uma criança são os responsáveis pelos modelos estáveis que permitirão o estabelecimento de um padrão relacionai e de procedimentos que constituirão as bases da vida relacionai dessa criança. Vale dizer que não basta que ela receba todo um aparato que atenda as suas necessidades de sobrevivência, de carinho e de atenção. A criança necessita, também, de um contexto organizado e dirigido pelos adultos para que ela possa incorporar-se ao seu mundo social, adequada ao código de comportamento, valores, costumes, normas, ritos, papéis e saberes deste mesmo grupo. Para que uma criança compreenda e se movimente nesse complexo cenário, que é o contexto social, ela depende de seus pais, irmãos, familiares, amigos, professores e outros, como seus norteadores e exemplos.

Cabe, principalmente aos pais, adequar as manifestações das crianças que são consideradas socialmente indesejáveis. No entanto, essa adaptação deve ter o caráter educativo da busca de um raciocínio ajustado à faixa etária e maturacional da criança e condizente com os objetivos e preceitos dos pais e da família. O que parece óbvio para os pais, muitas vezes não faz sentido para a criança, pela sua própria condição infantil. Muitas vezes, uma situação pode obrigar os pais a (talvez?) explicar uma centena de vezes a mesma coisa. O mesmo se aplica a crianças maiores ou adolescentes. Explicar e demonstrar expressivamente para eles o que se quer, quantas vezes forem necessárias, é atitude amorosa de verdadeiros educadores.

É comum a criança pequena negar-se a fazer algo apenas para demonstrar que ela já estabelece relações, que ela já tem uma opinião, que ela já é ela! Outras vezes, a negativa da criança em atender algo tem o objetivo de testar o quanto os pais realmente creem naquilo. Neste momento, é importante, que os pais compreendam e favoreçam a aprendizagem. Exemplo: a mãe de uma criança de três anos pede a ela que guarde os brinquedos. A criança diz que não guardará. Que fazer? Insistir! Neste caso, a mãe responde: “Meu filho, é importante guardar as nossas coisas. Todos fazem isso. Faça você também. Eu te ajudarei. Vamos?” Sabemos que a mãe fará dois terços do trabalho e a criança apenas um terço, mas o trabalho em parceria e o exemplo são fundamentais.

A criança que recebe orientação segura, que é ouvida, que tem um espaço para manifestar-se saberá ouvir e respeitar o espaço do outro. Ela necessita entender o sentido das coisas, seus rituais. O certo e o errado são muito relativos e dependem de uma série de variáveis, no entanto, há regras sociais e morais que são comuns e que fazem parte da contextualização: cumprimentar as pessoas, pedir licença, escovar os dentes, dormir em sua cama, almoçar, etc.

Valorizar o sentimento ou a observação da criança é importante, mas não deve desviar do caminho da formação. Exemplo: o pai avisa que é hora de tomar banho para ir dormir, pois já é muito tarde. A criança responde que não quer, pois é chato tomar banho ou que está muito cansada... O pai explica que é chato mesmo, que dá trabalho, mas todos tomam banho e ele precisa tomar o seu, e a leva até o banheiro e a atende no banho. Nesse pensamento educativo, o outro não apenas referencia a criança, mas é o interlocutor que irá provocar desenvolvimento.

Sob o ponto de vista do desenvolvimento, a autonomia vai acontecendo à medida que a criança pode compreender o funcionamento do mundo, manifestar-se adequadamente, cuidar-se e estabelecer relacionamento com o seu entorno. Para cada faixa etária existem padrões de autonomia que são considerados aceitáveis, ou não. Uma criança de quatro anos pode comer sozinha, uma de dez anos pode decidir sobre suas roupas e um adolescente de quinze anos deve saber andar de ônibus.

Dizer não, com um sentido verdadeiro de não, favorecerá a compreensão do sim e de tudo que se relaciona ao consentimento. A criança vai construindo conceitos acerca das pessoas e das coisas. Quando uma pessoa diz um sim, vencida pelo cansaço, esse sim não traz os benefícios de quem verdadeiramente consente. Quando uma pessoa acaba negando por desconhecer o seu papel e a verdadeira situação ou necessidade, esse não organiza, não dá limite, não educa, só confunde e atrapalha.

Faz parte da natureza da criança querer tudo que vê e que lhe dá prazer. Ela, inicialmente, imagina que tudo está para lhe servir, que tudo pode ser seu. Cabe aos adultos mostrar para a criança o lugar e a importância dos outros, para que ela possa compreender o seu lugar e a sua importância na sociedade.

Pais que se eximem da tarefa de educar seus filhos na tentativa de serem bonzinhos, acabam gerando irresponsabilidade e insegurança, além de dias difíceis com seus “baixinhos”.

Ninguém conseguirá desempenhar o papel de pai e mãe de uma criança, só eles mesmos. Os avós, os tios, os padrinhos e os professores têm um importante papel junto à formação de uma criança, mas unicamente como avós, tios, padrinhos e professores.

Para educar um filho é necessário um investimento de trabalho corporal, de tempo, de conversa, de valores, de dedicação, de dinheiro e de afeto. No dia-a-dia pode parecer muito trabalho, mas é só começar que ele flui de forma natural e prazerosa para os dois lados. Um filho, mesmo que já seja adolescente, compreende a preocupação de seus pais e se sente amado. Ele pode vir a reclamar, mas o que é verdadeiro é compreendido.

Nunca é tarde para recomeçar ou começar... Aliás, hoje é um bom dia! O retorno é prazer, alegria, companheirismo... É vida!

Ninguém nasce pai ou mãe. Aprende-se a ser pai e a ser mãe, com nossos exemplos sociais e com cada filho e em cada situação. Trazer um filho ao mundo e educá-lo para esse mundo é uma forma de transcender e de criar e recriar esse mesmo mundo, sob um outro ponto de vista, o da responsabilidade partilhada. E o fruto só pode ser bom!


Texto retirado do livro: "É proibido proibir?"
Contribuição: Iracema Rodrigues Costa Dourado
Coordenadora Pedagógica Educação Infantil
Colégio São Francisco de Assis
15.06.2018

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